Blog do Baldavira


Hoje choveu.

Finalmente!



Escrito por Marcos Baldavira às 14h48
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Muitos dos erros ortográficos e de concordância abaixo são obra do corretor do computador que insiste em "corrigir" o que eu escrevo, mesmo não tendo sido convidado a opinar.

Meus amados leitores têm direito irrestrito a pitacos.



Escrito por Marcos Baldavira às 15h44
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GENTE, TAÍ O FINAL DA HISTÓRIA.

-Deixem seus comentários -

 

A primeira coisa que chamou a atenção dos três foi que o contato, apesar de estar do lado de lá da fronteira, falava Português sem sotaque. Era um sujeitinho mirrado de pouco mais de um metro e meio de altura, com um bigodinho tão fino que mal se via. Usava um terno xadrez claro e que parecia ter pertencido a um grandalhão, tão folgado que era. Veio acompanhado de três “motoristas” para levar a encomenda. Estes eram três brutamontes com cara de índio e corpo de halterofilista o que chamou a atenção principalmente do Toco que não lhes tirava o olho.

A transação, num pequeno posto de gasolina abandonado, não levou mais que alguns minutos. Manivela exercendo sua prerrogativa de líder do grupo tomou a iniciativa:

- Você é o Guapo? – esse era o nome do contato que lhe tinham indicado. Manivela não era lá muito bom em Espanhol, mas achou que esse apelido era pura gozação, como o seu próprio.

- Eu mesmo. A encomenda é essa?

Sem muita conversa, inspecionou tudo. Abriu portas, olhou por cima, por baixo, por dentro.

- Chaves?

- Ligação direta.

- Isso aumenta meus custos operacionais. Vou ter que trocar o miolo de todos. Da próxima quero com as chaves.

- Não vai dar. Minha equipe não trabalha com o público.

- Entendi. (Bundões!, pensou)

Fez um sinal para um dos motoristas que se afastou alguns metros e de trás de um monte de entulho tirou uma sacola de academia de ginástica bem velha e meio suja, passou para o Guapo que entregou ao Manivela e, sem dar mais um pio e mesmo antes que pudesse conferir o que havia na sacola, saíram em disparada levando as encomendas e deixando uma espessa nuvem de poeira.

A volta foi muito tranqüila. Atravessaram a fronteira a pé e empoeirados da caminhada de uns dez quilômetros, já que ficaram sem transporte depois da entrega. Naquela mesma noite pegaram um ônibus e na tarde seguinte estavam na cidade.

Manivela que não pregara o olho durante toda a viagem, preocupado com a sacola, resolveu ir direto para o escritório do Beato. Assim se livraria daquela responsabilidade, receberia a parte que cabia à sua equipe e poderia, talvez, se dedicar alguns dias ao seu amado ócio. Tinham conseguido alcançar todas as metas e cumprido o prazo com sobra de um dia, mas conversando muito durante a viagem chegaram à conclusão que não topariam a sociedade. A coisa toda era muito trabalhosa e as exigências acabariam por deteriorar sua tão prezada qualidade de vida, então ficou acertado que Manivela, como sempre, os representaria e se incumbiria de declinar do convite sem magoar tão prestimoso quase-sócio.

Assim que apareceu sob o pórtico do prédio um alvoroço agitou todas as aeromoças assim como quando o galinheiro recebe a visita do granjeiro ou de um gambá e antes que se desse conta o Sombra pousou-lhe a mão de uma tonelada sobre o ombro e, com um sorriso indecifrável, trovejou:

- O Beato tá louco pra te ver!

O caminho desta vez pareceu mais curto. Para começar nem crachá, nem foto, nem secretárias. O elevador também foi outro. Ficava nos fundos do prédio, trancado a chaves e escondido atrás de uma parede falsa que se abriu quando o Sombra apertou um botão num controle remoto, pequeno, abafado e tinha um cheiro nauseante. Lembrou de ter sentido um cheiro parecido uma vez quando teve que buscar o Zé em casa para um trabalhou e o encontrou às voltas com o parto de uma ovelha e quase desmaiou. Outra coisa que lhe chamou a atenção foi que ao invés de subir, o elevador desceu e bem rápido. Quando a porta se abriu deparou com um salão imenso, mas abarrotado. Enquanto ia sendo “gentilmente” conduzido pelo Sombra através de corredores estreitos pode ver caixas e caixas de aparelhos eletrônicos, televisores, computadores, milhares de pares de tênis de marcas famosas e numa porta trancada com correntes e cadeados a palavra LABORATÓRIO. O cheiro nauseante foi piorando e se tornou pura carniça quando chegaram ao fundo do salão onde viu uma porta que lembrava aquelas em que, nos açougues, a carne é mantida gelada e que parecia ser a fonte do fedor. Do lado desta tinha uma outra porta que dava para uma saleta minúscula onde um Beato em mangas de camisa, vermelho como um peru e ladeado por dois sujeitos com cara de maus amigos parecia soltar faíscas pelos olhos e bufava como um touro de filme espanhol.

- Fiquei treis dia fora com a patroa num encontro de casal da igreja e quando vorto acho a minha garage vazia!

Zé se mudou para uma pacata cidadezinha do interior do Acre onde tem umas terrinhas e cria porcos, galinhas e ovelhas. Tem também umas vaquinhas de leite que fornecem matéria prima para os queijos que sua mulher fabrica e vende na feira de sábado em frente à Matriz. Parou com o leite condensado porque por lá é coisa difícil de achar e também porque considerou que mudar um pouco de aparência seria “saudável”. Emagreceu setenta quilos, fez plástica e a esposa até engravidou. São gêmeos outra vez e devem nascer perto do Natal. Os outros filhos foram morar com a Avó numa capital bem longe, mas com as escolas e atividades que precisavam. Sempre se falam por telefone, quer dizer, quando funciona, se escrevem e lamentam muito a falta da internet que facilitaria as coisas. No Natal, já com os gêmeos, deve visitá-los, se achar quem cuide da criação.

Toco, ajudado por Lilo, fez uma viagem meio às pressas para Paris. Ficou E-N-C-A-N-T-A-D-O! No clima romântico da Cidade-Luz, depois de uma noite M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A em que os dois C-H-I-Q-U-É-R-R-I-M-O-S, jantaram a luz de velas no restaurante da Torre, viram um espetáculo no Moulin Rouge e foram ver o sol nascer à margem direita do Sena, acabou cedendo ao charme de Lilo. Moram juntos agora em Milão. Toco mantém a pose como segurança da Boate onde os irmãos, com a chegada de Lilo, formam agora um trio e têm, justiça seja feita, lotado a casa.

Na cabeça e no coração de dona Creuza, Creosvaldo não tem sido mais do que uma baça e confusa lembrança. Em algum momento o fio da meada do tempo escapou-lhe apiedando-se dela que, às poucas visitas que recebe, costuma lamentar-se:

- Aquele pimpolho levado saiu-se ao pai. Escafedeu-se com o circo sem se despedir e nem sequer levou um agasalho!



Escrito por Marcos Baldavira às 13h51
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O resto da história vem mais tarde um pouquinho. porque não coube num post só.



Escrito por Marcos Baldavira às 11h58
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CONTINUANDO A  HISTÓRIA DO MANIVELA, TOCO E ZÉ

 

No dia e na hora combinados, reunindo toda sua força interior para vencer a timidez (e o medo), chegou ao prédio onde Beato dava expediente. Tudo era um luxo só. O prédio ficava na mesma avenida onde os maiores bancos do país e alguns dos mais importantes do mundo tinham suas sedes e suas agências, a porta de entrada era de vidro e de um metal todo dourado que dava a impressão de ser uma jóia e tinha a altura de uns três andares, de um lado do salão de mármore, com colunas de mármore havia um balcão de mármore cheio de computadores e de moças tão bonitas e arrumadinhas que pareciam aeromoças (nunca tinha viajado de avião, mas costumava passar as tardes de domingo olhando o movimento no aeroporto e o sobe-e-desce de aviões e era apaixonado pelas aeromoças, todas elas) e do outro lado umas oito portas de elevador. Em frente de cada porta um cara preto, de terno preto, gravata preta, sapato preto, óculos escuros pretos e fones de ouvidos pretos, todos do mesmo tamanho (uns dois metros por dois metros) e de cara amarrada. Todos tão iguais que pareciam mais cópias do mesmo cara, postas ali para assustar... e ele assustou. Foi por pouco que não desistiu ali mesmo, mas era tarde. Surgido sabe Deus de onde um outro negão trovejou atrás dele:

- Ta procurando alguém?

- Vim falar com o Beato.

- Aqui não tem nenhum Beato. Quem é você?

- Meu nome é Creosvaldo – já tremendo – mas me chamam de Manivela.

- To sabendo, mermão. Se liga na parada. Beato aqui não tem. Olha lá na parede o nome.

Olhou para cima e viu em letras quase da altura dele: “JOSÉ DE ARIMATÉIA SALGADO BUILDING”, embaixo um pouco menor, “JOSÉ DE ARIMATÉIA SALGADO ENTERPRISES & BUSINESS” e mais embaixo, pouca coisa menor “JOSÉ DE ARIMATÉIA SALGADO, OWNER”.

Tão educada e delicadamente quanto lhe era possível, aquela figura o levou até uma das “aeromoças”, que pediu identidade, fotografou e lhe deu um crachá para pendurar no pescoço e não tirar de forma alguma enquanto estivesse no prédio. Sorriso nenhum.

Sempre com aquele marmanjo lhe fazendo sombra, pegou um elevador, desceu, pegou outro, desceu de novo, passou por umas três ou quatro recepcionistas, duas secretárias, outro negão, mais dois negões, outra secretária e, por fim um conjunto de negão-secretária que o puseram sentado num sofá estranho e lhe deram um café que foi difícil equilibrar porque o sofá afundava tanto que ele se sentia numa bolota de algodão.

Depois de umas duas horas de espera bem aproveitadas – viu entrarem e saírem o prefeito e uns outros dois ou três políticos, artistas da novela principal vieram num grupinho barulhento e um jogador de futebol que joga no exterior e que já estivera melhor na carreira – foi chamado à presença do homem.

Beato foi direto ao ponto.

-Tô querendo expandir os negócios pruma coisa mais tranqüila, mais light e me disseram que tu é o cara. Que com tua equipe tu rói o osso e gospe o caroço. To pagando pra vê e se a coisa rolá a parceria tá feita. Tu só vai tê que me prová que tu é o que tão dizendo. O prazo é na bucha e a grana na chincha. Tu vai encará o vai amarelá quenem time de bacana na final?

- Qual é a parada.

- A parada é a seguinte: três dia pra entregá três importado preto e do ano no Paraguai, mais dois dias pra voltá com a grana na minha mão. Se rolá é sociedade, se não rolá, cada um na sua.

- Feito. Pra quando?

- Tá valendo. Passa aqui no andar debaixo e procura o bola 7. Ele vai te dar as instrução.

No andar de baixo uma surpresa. O Bola 7 era um cara tão branco, tão branco que não tinha cor no cabelo, nem na sobrancelha e nem na menina dos olhos. Usava terno branco com camisa branca, sapato preto e gravata preta, cinto preto e suspensórios pretos. Parecia um negativo de fotografia daqueles caras da portaria. Usava uns óculos fundo-de-garrafa de lentes vermelhas e ficava atrás de uma mesa com pilhas e pilhas de papéis e uns cinco computadores ligados nos quais mexia ao mesmo tempo, fazendo Manivela se lembrar de um artista de sua adolescência que tocava um monte de teclados ao mesmo tempo, um tal Rick Walkman, ou qualquer coisa assim. Como se conhecesse Manivela e tivesse participado da conversa do andar de cima, estendeu um papel e sem levantar a cabeça disse:

- Ta tudo aí. É só ler.

No mesmo instante uma mão enorme e pesada despencou-lhe sobre o ombro e um trovão disse:

- Vamos descer.

O Sombra tinha voltado e o acompanhou de volta até o imenso saguão onde devolveu o crachá para outra “aeromoça” que olhou fixo para sua cara, depois para o computador, depois para sua cara de novo e disse um “ok” gelado.

Ainda meio atordoado com tudo aquilo, Manivela seguiu a pé por alguns quarteirões aproveitando para colocar as idéias em ordem enquanto procurava pelo carro que deixara estacionado em algum lugar que já não se lembrava. Quando já tinha certeza de que seu carro estaria nas mãos de algum gatuno, encontrou-o parado bem em frente a uma loja de calcinhas e sutiãs onde preferira parar justamente para não esquecer.

Foi primeiro á casa de Toco que era mais perto, explicou tudo meio por cima durante a viagem até a casa de Zé, lá onde o vento faz a curva. Chegando lá, foi meio difícil explicar as coisas em meio àquela barulheira de gente-cachorro-criança num fala-late-grita de ensurdecer, então empurrou Zé para o carro e, meio aturdido, levou-os a um boteco na beira da estrada de terra da casa do Zé onde explicou tudo tim-tim por tim-tim.

Toco começou a ficar branco, passou para amarelo e quando já estava verde correu pros fundos do bar e adubou o mato com o que restava do almoço no estômago. Zé, calmo como só os consumidores de grande quantidade de açúcar conseguem ser disse:

- A gente se prepara uns dias, ajeita as coisas com a família e faz.

- É pra hoje. Tá aqui o papel com as instruções.

Foi a vez de Zé empalidecer. Não que estivesse preocupado com a empreitada e o empreiteiro já que auto-confiança tinha para ele e para os sócios com sobra. O problema era doméstico. Tinha ficado de levar a mulher às compras, os garotos no parque e a sogra queria ir no cabeleireiro e já estava torrando há uma semana. Escapar disso ia ser bom, mas ia ter que ouvir um monte.

Quando toco retomou o controle sobre seu corpo conversaram, discutiram, planejaram e foram à luta.

Era quase meia noite quando se juntaram no ponto combinado. Tinham escolhido o bairro dos ricaços. Nele haveria um sortimento maior daquilo que procuravam, as inúmeras e gigantescas árvores das ruas encobriam as luzes dificultando a visão e os vigias, apesar de em grande número, ou eram seus amigos ou costumavam dormir profundamente a noite toda. Prova disso é que o número de assaltos e roubos era maior ali de que em outros lugares da cidade.

O plano era simples, tão simples que não tinha como dar errado. Pegariam a encomenda, levariam juntos a um ponto de partida junto à saída da cidade e de lá, por rotas diferentes seguiriam até a cidade paraguaia combinada onde se juntariam de novo em dois dias para a entrega. Daí era só pegarem um ônibus ou, até quem sabe, um avião e chegariam com prazo sobrando.

Em qualquer lugar aquelas três figuras ímpares andando juntas seriam logo notadas e provavelmente o alvo das atenções. Vestiam roupas escuras dos pés à cabeça, mal deixando uma parte do rosto aparecendo sob o capuz. Fosse carnaval estariam fantasiados de ninjas. Mas ali naquelas ruas onde as sombras venciam a luz de goleada tornaram-se praticamente invisíveis, facilitando sua vida.

Já perambulavam há quase duas horas quando, entre atônitos e preocupados com a total falta de mercadoria, deram de cara com uma coisa que mais parecia um milagre, um prêmio pela sua paciência e profissionalismo. A rua terminava na garagem de uma mansão imensa, sem portões, sem guaritas e a única lâmpada do poste em frente travava uma luta de Sansão e Golias com dois chorões supernutridos e, por enquanto, perdia feio. Se três procuravam, três havia lá. Se precisavam ser do ano, do ano eram. Se pretos deveriam ser, pretos se mostravam. Foi bico.

A viagem solitária de cada um apresentou lá seus probleminhas. Zé levou um estoque de leite condensado que se revelou menor que o tempo do percurso, o que o deixou meio estressado e, procurando um improvável supermercado no meio da estrada de terra quase atropelos uma boiada botando tudo a perder. Um pastel num botequim do caminho foi a desgraça de toco que teve que parar umas 20 vezes para aliviar a cólica e, quando chegou, mal parava de pé. Manivela não ficou atrás no contratempo: como não poderia deixar de ser o dele foi uma mulher. Logo que cruzou a fronteira se encantou com uma índia num inferninho que lhe aplicou um “boa noite Cinderela” e só não lhe levou a “encomenda” porque o Zé, gênio da eletricidade que era, tinha botado um dispositivo anti-furto. Tirando isso, chegaram no prazo, as encomendas estavam tinindo depois de uma cuidadosa limpeza que se incumbiram de fazer pessoalmente. Era hora de procurar o contato.



Escrito por Marcos Baldavira às 11h57
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Para quem ainda não notou, acrescentei aí do lado os links de dois novos blogs: CHÁ DE HORTELàe PODEROSA AFRODITE. Eles são escritos por uma grande amiga que, além destes dois, escreve para vários outros. Estes são os de que mais gostei. Vale conferir.

Escrito por Marcos Baldavira às 07h41
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Estou postando a história completa do Manivela, Toco e Zé. Metade hoje, metade amanhã.

Quem já acompnhava, vai poder saber como termina, quem está vendo pela primeira vez vai conhecer.

Por favor, comentem - mesmo que for para descer a lenha - e divulguem.



Escrito por Marcos Baldavira às 19h41
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MANIVELA, TOCO E ZÉ

 

 

Formavam um trio. Melhor que isso, eram uma equipe, um time e dos melhores. Prova disso é que costumavam ser convocados para trabalhos especiais, encomendas difíceis feitas pelos maiores figurões do ramo. Muitas vezes numa empreitada de um dia ou uma noite ganhavam para o mês inteiro e, então, podiam se dedicar àquilo que mais gostavam: o ócio, mesmo sem saber o que essa palavra significa.

Manivela era o mais velho, tanto em idade como na profissão e no grupo, por isso era uma espécie de líder, de oficial. Era ele quem comandava as operações. E nisso considerava-se muito bom. Seu nome de batismo era Creosvaldo, que achava lindo. Era a soma do nome de sua santa mãezinha Creuza com o Osvaldo, tratador de um circo, que dizia ser trapezista e prometera à Creuza que a levaria, mas sumiu antes de o sol raiar. O apelido fora conseqüência indireta do que ele costuma chamar de um acidente de cama. Numa noite de vacas gordas se esbaldava num bordel com uma moça-da-noite, um tanto gordinha que exagerou um pouco na cavalgada e acabou provocando-lhe uma fratura que com o tempo e o conserto mal feito (culpa do SUS, segundo ele), acabou deixando como seqüela um certo formato que deu origem a várias interpretações que variam segundo a imaginação do observador. Nunca gostou muito dele (o apelido, é claro.), mas acabou se acostumando, mesmo achando que, no caso, Baioneta, seria mais apropriado e, de certa forma, mais condizente com a profissão.

Segundo a integrar o grupo, Toco era o mais jovem. Passava pouco dos vinte anos e o conjunto de músculos que envolvia seu esqueleto de quase dois metros era de chamar atenção. Para sua tristeza não das mulheres que deram para preferir sujeitos metro - sei -lá-o-quê, caso que não era o dele. Para dizer a verdade, já se vira obrigado a dar uns safanões em tipos como esses que lhe andaram fazendo umas propostas esquisitas. Esse corpo conseguira a custa de muita malhação. Sempre fora muito alto e desengonçado e, a conselho de uma ex-quase-namorada que acabou não sendo, entrou para uma academia e puxou ferro adoidado. Também andou tomando umas bombas, mas começou a desconfiar quando pela primeira vez não conseguiu dar a segunda e largou tudo antes que o pior acontecesse. Toco, o apelido, veio de um professor da 7ª série que tinha o hábito de fazer a chamada juntando as primeiras sílabas dos nomes dos alunos. Tobias Correa, seu nome, acabou virando Toco para sempre. Só aceitou mesmo esse destino quando, na 3ª vez que fazia a sétima série, conheceu o Paulo Dumont Rodrigues que namorava a Valéria Gimenes do Nascimento.

Ranzinza, grosso e gordo até não poder mais devido ao vício incontrolável - adquirido na adolescência - de tomar leite condensado de canudinho. Como faz um gaúcho com sua cuia de chimarrão, Zé passava dia e noite com uma inseparável latinha com um furo na tampa por onde saía um canudinho bem fininho e através do qual sorvia o líquido espesso bem devagar para curtir mais. Sofria de flatulência e de refluxo de modo que nem sempre era uma companhia agradável, mas era um gênio em matéria de eletricidade. Bem, talvez gênio seja um tanto exagerado, mas no grupo era o único que sabia o que era positivo e o que era negativo e, como veremos, isso era fundamental para o sucesso de suas empreitadas. Chamava-se na realidade – culpa de seu pai que achava que sabia falar grego – Spartecevicius. Zé, já que ninguém conseguia pronunciar.

Já se passavam algumas semanas desde o último trabalho e a grana já estava ficando curta quando Manivela soube que o famoso Beato andava à procura deles. A principio estranhou porque sabia que Beato era muito famoso em outro ramo, no qual sua equipe não tinha nenhuma experiência e para o qual não pretendia entrar. É melhor fazer uma coisa só na vida e fazer bem feito, do que querer ficar diversificando e fazer bobagem. Agora, então, era reunir o grupo e marcar o encontro.

Como sempre acontecia nesses intervalos entre uma e outra missão, era cada um por si. Vida profissional é uma coisa, vida particular é outra e é melhor não misturar. Senão começa aquela coisa de um vai na casa do outro, conhece a família, arruma afilhado, entra um sentimentalismo na jogada que não condiz com a profissão e nem com homem que se dê ao respeito. Assim era melhor e cada um aproveitava suas férias como quisesse.

Zé tinha família. Mulher, quatro filhos e a sogra moravam com ele numa casa meio afastada do centro da cidade - na verdade quase no meio do mato - mas ele achava que assim é que deveria ser para manter a privacidade e a discrição que um bom profissional deveria ter. Sua vida nesses intervalos era a casa e a família. Cuidava do jardim, da horta e de uma meia dúzia de porcos e outra de carneiros que criava para o abate, mas sempre acabava pegando amor pelos bichinhos e na hora do churrasco era no açougue que se guarnecia. Pai dedicado fazia questão de levar e buscar os filhos na escola, o que dava um trabalhão por que o mais velho e a menina estudavam numa escola no centro, já que por perto de casa não havia escolas particulares e a pública estava tomada por menores infratores e viciados. Os gêmeos, um casalzinho, estavam ainda na pré-escola também longe e num horário diferente dos dois maiores, sendo que todos eles também tinham outras atividades como natação, judô, inglês, espanhol, violão, sax e dança do ventre. Era uma loucura para arrumar a agenda e, descanso mesmo, só no fim de semana quando finalmente podia tomar seu leite condensado calmamente olhando a criação.

Na academia do bairro onde morava Toco era famoso e muito querido. Famoso pelo seu porte e pela persistência e tenacidade com que fazia duas coisas. A primeira era malhar três turnos por dia de segunda a segunda, desaparecendo de vez em quando por alguns dias e retornando com mais vontade ainda na volta. A segunda era a total, absoluta, ridícula, humilhante falta de sorte com as mulheres. Já tinha, na academia, tentado cantar todas. Solteiras, casadas e viúvas bonitas foram seus alvos de tentativas tanto insistentes quanto infrutíferas. Passou então para as menos bonitas, depois para as menos novas, as nada bonitas, mas se recusava, pelo menos por enquanto, a tentar as muito velhas e muito feias. Havia, no entanto, alguém que o queria para si com todas as forças de sua alma, alguém cujo coração latejava de uma dolorosa paixão por ele, que, ao que parecia, simplesmente era incapaz de notar-lhe sequer a presença. Figura tão dedicada ao corpo quanto Toco, tão assídua à academia quanto ele, com um corpo tão sarado que só seria justo unir-se ao dele. Seu nome era Hélio. Lilo, como era chamado por todos era o irmão mais novo do dono da academia e pertencia a uma família de seis irmãos, todos assumidíssimos. Dois moravam em Milão onde faziam um grande sucesso num show de variedades, dois eram sócios num badaladíssimo salão de beleza e ele e o irmão mais velho tocavam aquela academia. Era assim o tempo livre do Toco.

O recado de Beato tinha encontrado Manivela num dia típico de seu período de folga. Costumava acordar já pelo meio da tarde, sempre com uma terrível ressaca, em algum lugar que custava a reconhecer, isso quando reconhecia, sem ter a mínima idéia de como tinha ido parar ali nem de com quem estivera, sempre pelado e recendendo aos mais enjoativos perfumes femininos, daqueles de camelô, o que só fazia piorar a dor de cabeça e a náusea. Daí tinha que correr para casa, acudir sua santa mãezinha. Nunca casara e não pretendia; tudo que precisava de um casamento encontrava nos motéis e bordèis da cidade e, achava, a despesa era a mesma. No seu amplo e luxuoso apartamento de dois andares e cinco quartos com uma vista maravilhosa para uma das maiores favelas da cidade (que achava uma manifestação cultural, quase artística) somente moravam ele e sua santa mãezinha, que, já beirando os oitenta, fazia questão de cuidar de tudo sozinha. Como era esperado, a comida e as roupas do seu único e amado filhinho estavam sempre perfeitas, mas a casa vivia numa bagunça de fazer dó. Isso era resolvido durante as muitas viagens que dona Creuza fazia com grupos de terceira idade quando Creosvaldo aproveitava para contratar uma faxineira para dar um jeito na casa. Nessas viagens dona Creuza levava na bagagem uma esperança amarelada: encontrar o circo e com ele o Osvaldo que já estaria por perto dos noventa e tantos anos.

José de Arimatéia Salgado era homem bondoso, justo e muito religioso na sua opinião. Por nada perdia uma missa, participava de todas as atividades da Igreja, contribuía para as obras de caridade e se confessava toda semana. Preferia a confissão comunitária que achava mais interessante porque não tinha o padre intermediando e lhe dando sermões nem penitências quase impossíveis de serem cumpridas para um homem ocupado como ele. Além do mais, alguns párocos já tinham ficado um pouco preocupados depois de suas confissões e dois deles pediram transferência para outros estados. Foi melhor para eles. Formado em direito numa faculdade particular à qual dedicara um final de semana por mês durante longos quatro anos vinha sendo injustiçado no exame-de-ordem há outros seis anos e, por isso, gastava fortunas com colegas que era obrigado a contratar em razão dos negócios e das enrascadas que seus empregados se metiam e que sua incontrolável necessidade de ajudar ao próximo o obrigava a resolver. É verdade que andava sempre com dois ou três seguranças que, por causa do carinho que nutriam por ele, o presentearam com uma automática que carregava sempre consigo em atenção a eles, mas era amante da paz e detestava violência. Nunca precisara recorrer a ela para cobrar dívidas ou disputar bons locais para os negócios. Sempre teve amigos para fazerem isso por ele e aos quais presenteava, agradecido que era, com generosas quantias em dinheiro ou em mercadoria para que consumissem ou vendessem conforme preferissem. Como todos no ramo, era fundamental ter um nome profissional, nome de guerra como diziam. Mas guerra é coisa violenta, por isso preferia alcunha. A sua era Beato, que considerava perfeito por que dava a dimensão exata de seu perfil.

Apesar do sucesso no ramo, Beato andava meio cansado. Era uma atividade que precisava atenção permanente, altos investimentos, muitas viagens ao exterior para visitar fornecedores na América do Sul e compradores da Europa e que exigiam complexas operações já que não era muito seguro utilizar vôos de carreira. Ficara sabendo de um certo trio cuja competência num ramo menos rentável, mas muito seguro era legendária e resolveu convidá-los para uma parceria num pequeno projeto de teste, mas que poderia acabar numa parceria, quiçá uma sociedade futura. Foi assim que mandou, através de um ex-interno da mesma instituição onde permanecera por alguns anos e que se tornara seu comandado, um recado a Manivela pedindo um encontro.

A princípio, Manivela estranhou o convite. Ficou meio ressabiado, confuso, preocupado... com um medão mesmo. Beato era um grande empresário, famoso no seu ramo. Tinha um exército trabalhando para ele, não precisava pedir favores, era amado, odiado, querido, temido... que diabos poderia querer com ele e sua equipe? Não que não fossem eles também profissionais, respeitados no meio e, modéstia à parte, os melhores na arte, mas seu trabalho era mais...digamos...artesanal e se tinha algo de que não gostavam era de lidar com o público. Por isso preferiam o trabalho noturno quando as ruas são calmas e podiam trabalhar sem serem observados, nem ter que falar com ninguém. Essa idéia de falar com um famoso tão famoso o fazia suar em bicas.



Escrito por Marcos Baldavira às 19h37
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