Blog do Baldavira


HISTÓRIAS DE POMORIRE

 

I

 

             MDCCCXCVIII. Assim mesmo. Era em algarismos romanos a única referência a uma possível data de fundação da cidade. Estava gravada em relevo no arco que encimava o portão do cemitério, estranhamente chamado por todos de “cemitério velho”, já que um mais novo não havia. Era o único, ficava nos arrabaldes da cidade no pé de um dos morros que a circundavam – a Serra do Cruzeiro” - e tinha a dupla responsabilidade de receber e abrigar aqueles que se iam ou eram despachados desta para a outra e de ser o guardião da data da possível fundação.

        Não havia – porque se perderam ou, mais provável, porque nunca houve – documentos que determinassem corretamente a data da fundação ou quem fundara a cidade. Havia uma certa história que de tão repetida era já tomada como verdade a ponto de - por ordem de um prefeito que se dizia descendente do fundador, mesmo não se sabendo exatamente quem fundara – ser ensinada nas escolas e constar das sabatinas. Aliás, como veremos, a história toda daquela cidade parecia ser feita do tecido frouxo destas historietas costuradas entre si.

        Dizia a lenda que no ano de 1898, um imigrante italiano atraído pela promessa de trabalho e prosperidade na cultura do café trabalhara a terra para muitos patrões até que juntou seu pequeno quinhão e saiu a procura de um pedaço de terra para se tornar patrão e ter seus próprios imigrantes. Achou-a no meio do estado. Havia terra fértil, água boa e abundante e a paisagem recortada do planalto somada ao verde da mata nativa tornavam o lugar algo parecido com a imagem que fazia do paraíso. Algo para ver e depois morrer – vedere e doppo morire. E resolveu que aquele seria o lugar de seu descanso eterno. Antes mesmo de uma casa ou até uma igreja, ergueu o pórtico do cemitério e ao fim da obra, tomado por uma forte emoção, tombou ali mesmo sob ele, irremediavelmente morto. Diz também a lenda que seu corpo foi enterrado exatamente sob o pórtico e esta é a razão pela qual todos, inclusive os que não vão mais sair, entram por um portão lateral.

A história e consequentemente a frase dita pelo italiano foi dita e repetida, contada e recontada por tantas gentes, de tantos lugares, de tantos sotaques e de tantos jeitos de falar que foi sendo virada moída, roída e corrompida e foi dar na palavra POMORIRE. Esta é outra historinha. A que conta a origem do insólito nome daquela cidade.



Escrito por Marcos Baldavira às 14h41
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A BACTÉRIA DO ESTÔMAGO E O CÂNCER GÁSTRICO

 

 

 

Na última coluna escrevi sobre o Helicobacter pylori, a bactéria do estômago, e sua relação com as doenças pépticas, isto é, aquelas doenças relacionadas à fase gástrica da digestão como a gastrite, úlcera duodenal e etc. Prometi que nesta falaria um pouco mais sobre esta bactéria, sendo agora o foco a sua relação com o câncer do estômago. Câncer de um modo geral é um assunto bastante complexo e por vezes controverso, e o câncer gástrico não foge à regra. Para se ter uma idéia existe uma Associação Internacional de Câncer Gástrico, que tem como uma de suas afiliadas a Associação Brasileira de Câncer Gástrico a qual pertenço e tive a honra de ser um de seus fundadores. Estas entidades, que se dedicam exclusivamente à pesquisa do câncer gástrico e seu tratamento, promoverão no próximo mês de Maio, em São Paulo, o 7º Congresso Internacional de Câncer Gástrico, pela primeira vez no Brasil. Lá estarão reunidos os maiores especialistas de todo mundo neste assunto e os pesquisadores brasileiros estão entre os mais respeitados.

Já deu então para perceber que este é um dos assuntos que mais me atraem como profissional, uma vez que antes de me bandear para estas plagas, era ao câncer gástrico que me dedicava como pesquisador.

Câncer, seja ele qual for, está sempre ligado à genética, ao DNA (que determina todas as funções do nosso organismo) do indivíduo. Como Deus, a Natureza e a Evolução não nos conceberam para ter câncer, ele é um acidente de percurso e que começa na intimidade de nossas células a partir de um defeito do DNA. Este defeito pode ser uma codificação errada que bloqueia ou não ativa os mecanismos que impedem a célula de se tornar cancerosa ou pode provocar diretamente a transformação cancerosa. Ainda pode ser hereditário (herdado de nossos pais e avós) ou adquirido durante a vida. Neste último caso ocorre o que podemos, simplificando, chamar de mutação.

Alguns tipos de câncer ocorrem predominantemente por predisposição hereditária, como é o caso do câncer de mama. Outros ocorrem por mutações adquiridas durante a vida, como alguns cânceres de pele. O câncer gástrico se encaixa nos dois tipos, isto é, ele apresenta um forte padrão familiar (hereditário) e um ainda mais importante padrão de doença adquirida. Hoje já temos bem estabelecidas as relações diretas dele com o fumo, com o consumo de alimentos em conserva, consumo de alimentos defumados, bebidas alcoólicas e outros hábitos menos freqüentes, mas não menos importantes.

Mas o nosso personagem é o Helicobacter pylori, pois não? Onde ele se encaixa nesta história? Ele é um dos vilões do câncer? Resposta: é sim. E se encaixa justamente entre as causas ambientais ou adquiridas. No último artigo eu escrevi que esta bactéria, quando no estômago, pode provocar um processo inflamatório que se perpetua (crônico) a tal ponto que enfraquece as defesas próprias do estômago contra o ácido clorídrico levando a quadros de gastrite ou úlcera. Este mesmo processo inflamatório faz com que as células da parede do estômago tenham que se renovar a intervalos cada vez mais curtos, aumentando muito o número de divisões celulares. Estas divisões, apesar de serem um processo natural de nosso organismo, representam um momento crítico na vida da célula em que nada pode dar errado ou pelo menos não deveria, mas acontece. Quando alguma coisa dá errado existem basicamente duas possibilidades: ou a célula resultante simplesmente não funciona e morre ou ela funciona mal. Neste último caso, na maior parte das vezes, o organismo consegue identificar estas células defeituosas e se incumbe de destruí-las antes que elas causem problemas. Quando isto não ocorre esta célula começa a se multiplicar de forma independente dos mecanismos de controle do organismo (é uma fora-da-lei!) levando ao aparecimento do câncer e suas conseqüências.

Resumindo, então, o Helicobacter pylori está intimamente relacionado ao câncer gástrico como um fator extrínseco, isto é, de fora do organismo, levando a alterações crônicas que podem levar a erro de divisão celular e ao aparecimento do câncer.

NOTA: Esta matéria foi originalmente publicada no JORNAL AGOSTO em março de 2007.



Escrito por Marcos Baldavira às 14h12
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